quarta-feira, 8 de março de 2017

SOBRE SER MULHER NA ERA DO ABANDONO

Atrás da Porta

( Francis Hime - Chico Buarque)

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...


O ABANDONO
Um dos principais motivadores para o desenvolvimento de sintomas depressivos nos usuários que buscam atendimento na Unidade Básica de Saúde é o histórico de abandono. São mulheres, entre 30 e 60 anos, que estão enfrentando sintomas como sentimento de desesperança, cansaço extremo, falta de motivação para tarefas básicas como trabalhar, cuidar da casa e de si mesmas, e que tem o mesmo foco na hora de relatar sua história: foram abandonadas, na infância pelo pai, pela mãe, na adolescência pelo namorado, pelo marido, pelos maridos, pelos filhos. O abandono gera marcas profundas, desestruturando muitas pessoas, reabrindo feridas da infância, fazendo com que essas mulheres entrem em uma relação destrutiva consigo mesma. 
Nos relatos abaixo, os nomes das pacientes foram trocados para que se preserve sua identidade.

LÚCIA
            Lúcia foi abandonada pelo esposo ainda dentro do casamento. Durante 30 anos viveram juntos, tiveram 2 filhos, hoje adultos, e o esposo tinha uma outra família há poucos metros de onde morava. Enfrentou a fúria do marido diversas vezes, e apanhou, muito. Foi espancada, enforcada, trancafiada, explorada, retalhada, atropelada. Certa vez estava passando roupa e o marido tentou matá-la. Ela conta que a culpa foi dela, porque “correu para o quarto errado, que não tinha janela para fugir.” Hoje vivem separados: ela na casa que um dia foi do casal, e ele com a outra família. Ela conta que ele foi embora, simplesmente, há aproximadamente 10 anos, e que isso foi um alívio para ela, pois pensava que iria morrer em suas mãos. Ficaram os filhos: dois meninos, que cresceram e se tornaram homens.
            Lúcia enfrenta agora o abandono dos filhos. Primeiro o mais velho, que vai embora para viver em uma comunidade espírita no norte do país. Ele já voltou, mora próximo à sua casa, mas nunca perdoou esse distanciamento de quando saiu pela primeira vez de casa. Agora, o mais novo, que casou mas continuou vivendo junto à mãe, teve uma filha, e foi morar em sua própria casa. O filho foi embora, com a neta, com a nora, e ela não aguenta. Procurou atendimento, está sufocada, não consegue chorar, sente medo o tempo inteiro, não quer ficar sozinha, não quer morrer sozinha, não quer morrer. Lúcia chora. Como um bebê. Lúcia, o bebê abandonado. Em sua casa, enorme, sem o esposo, sem os filhos, sem a neta. Quem sabe em qual deles ela revive um outro abandono, esquecido, longínquo, remoto? Qual o primeiro abandono de Lúcia? Lúcia teme a morte, e quando Lúcia morrer, finalmente poderá abandonar sua dor.



MARIZETE
O pai abandonou a mãe no momento de registrar a ela e à sua irmã, gêmea. Disse que precisava comprar algo no mercado, em frente ao cartório, e nunca mais voltou. A mãe, por sua vez, a deixou com os avós. Mais um abandono. Aos 11 anos, morre a mãe. Sente-se sozinha, e sem ter como recuperar essa relação. Casou-se, com um dependente químico, que a deixava sozinha em casa com os filhos para cheirar cocaína com amigos e outras mulheres. Abandonada, em casa, separou-se e deixou um dos filhos com os avós paternos. Culpa-se por ter que abandonar um deles. E agora, o filho, que é dependente químico, quer abandonar a esposa e o filho para voltar a morar com ela. Ela busca atendimento para empoderar-se e dizer ao filho que não, que não quer continuar vivendo neste ciclos de abandonos. Marizete quer abandonar a si mesma em sua própria vida, sem ter que cuidar mais dos abandonos do mundo, e sem ser abandonada por ninguém. Viver, apenas. Deixar-se fluir e esquecer o mar de abandonos em que se afoga diariamente.

DINORÁ
A fragilidade é a marca de Dinorá. Fala com uma doçura lânguida, as mãos em movimento chegam a dançar, os olhos se perdem, abandonados em um discurso queixoso da própria solidão. Dinorá foi abandonada no Natal passado, pelo esposo, que foi morar com outra mulher, após 20 anos de casamento, e levou os dois filhos do casal. Ela passou a virada do ano sozinha em casa, com medo de se abandonar à ideia de suicidar-se, sentada na cozinha, esperando a ajuda que nunca veio, esperando a ligação da filha, o abraço do filho, o pedido de perdão do esposo. E assim passou todo o mês de janeiro, quando os filhos voltaram, e o esposo também, mas agora para pedir que ela o ajudasse a montar uma nova casa. Comprou geladeira, fogão, forno microondas. Ele foi morar em outra casa. Mudou de namorada. Não conseguiu se manter financeiramente e voltou a morar com Dinorá. Ela adoeceu e passou 18 dias internada com meningite. Não recebeu nenhuma visita. Nem dos filhos. Após a alta voltou para casa, e reclama que ninguém pergunta por sua saúde, ninguém quer saber como ela está. Os dois filhos e o ex esposo fazem questão de ignorá-la. Ela sofre. Não quer mais viver nesta situação, mas não quer abandonar os filhos. Coisa de mãe. Dinorá vai levando. Quer abandonar tudo, ir morar no interior com o pai e as irmãs. Mas depois. Depois do Natal. Vai fazer um ano que o marido a abandonou. Ela agora odeia o Natal. Mas não quer passar longe dos filhos. A fragilidade dissimula uma força que nem a própria Dinorá conhece, pois não é fácil lutar contra a correnteza, mas ela ainda respira. Dinorá ainda nada, mas não sabe para onde.

FÁTIMA
Ela quer morrer. Porque o marido a deixou. Depois de 20 anos de casamento, ele a deixou, não pode mais viver com ela, e ela não quer morrer sem uma família. A mãe enlouqueceu depois que foi abandonada, e ela não quer ter o mesmo destino. Ela lembra da mãe, feliz, trabalhando, até que o pai foi embora. A mãe enlouqueceu. Ela também está enlouquecendo. Ela quer morrer.
O histórico de abandonos passa também pela mãe. Fátima foi violentada por um tio quando tinha 13 anos de idade e a mãe a repreendeu por dedurá-lo. Devia ter ficado calada. Foi responsável pelo divórcio da tia. A mãe, que devia protegê-la, queria proteger o casamento da irmã. O casamento é mais importante. Ela casou. Casou e agora, depois de tudo pronto, depois de tudo acertado, depois de tudo planejado, ele mudou de ideia. De certa forma, a sociedade ensinou isso a ela: só vai ser feliz se estiver casada. Agora tudo acabou, e ela quer morrer. Não quer matá-lo dentro de si. Não o esposo, mas o casamento. Quantas Fátimas teremos que desconstruir até que possamos reerguer em uma arquitetura saudável uma nova Fátima, completa e sozinha, mas viva. Porque no fundo, ela quer viver e ver-se assim, como se casada consigo mesma. Vamos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
E agora, Maria?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, Maria?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, Maria?
Está sem marido,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, Maria?

E agora, Maria?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu vestido de vidro,
sua incoerência,
seu ódio 
 e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
Maria, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é dura, Maria!

Sozinha no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, Maria!
Maria, para onde?
*Livre adaptação do poema JOSÈ, de Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 13 de setembro de 2016

CONSELHOS PARA A MULHER FORTE




CONSELHOS PARA A MULHER FORTE
(Gioconda Belli, Nicarágua, 1948)
Se és uma mulher forte
te protejas das hordas que desejarão
almoçar teu coração.
Elas usam todos os disfarces dos carnavais da terra:
se vestem como culpas, como oportunidades, como preços que se precisa pagar.
Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares ou de seus prantos
até o mais profundo do magma de tua essência
não para alumbrar-se com teu fogo
senão para apagar a paixão
a erudição de tuas fantasias.
Se és uma mulher forte
tens que saber que o ar que te nutre
carrega também parasitas, varejeiras,
miúdos insetos que buscarão se alojar em teu sangue
e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.
Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz
a negar-te a palavra, a esconder quem és,
tudo que te obrigue a abrandar-se
e te prometa um reino terrestre em troca
de um sorriso complacente.
Se és uma mulher forte
prepara-te para a batalha:
aprende a estar sozinha
a dormir na mais absoluta escuridão sem medo
que ninguém te lance cordas quando rugir a tormenta
a nadar contra a corrente.
Treine-se nos ofícios da reflexão e do intelecto.
Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo
o rodeia de fossos profundos
mas lhe faça amplas portas e janelas.
É fundamental que cultives enormes amizades
que os que te rodeiam e queiram saibam o que és
que te faças um círculo de fogueiras e acendas no centro de tua habitação
uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o fervor de teus sonhos.
Se és uma mulher forte
se proteja com palavras e árvores
e invoca a memória de mulheres antigas.
Saberás que és um campo magnético
até onde viajarão uivando os pregos enferrujados
e o óxido mortal de todos os naufrágios.
Ampara, mas te ampara primeiro.
Guarda as distâncias.
Te constrói. Te cuida.
Entesoura teu poder.
O defenda.
O faça por você.
Te peço em nome de todas nós.

domingo, 4 de setembro de 2016

REDES: um conceito que precisa ser difundido e aprofundado




Redes como Sistemas de Interação Social

O conceito de rede é pensado, muitas vezes, como um tipo de sistema de inter-relação social diferente do grupo, por diversas características. Apesar de algumas divergências teóricas, o principal aspecto definidor do que seria uma rede é a sua capacidade de articulação e rearticulação permanente.
As práticas interativas são o motor da produção da cultura, fazendo com que existam múltiplas possibilidades de arranjos e negociações, dependendo do potencial de contatos e fronteiras que os agentes sociais envolvidos em tais processos podem estabelecer. Nesse sentido, seria impossível perceber a sociedade como uma unidade fechada, com suas características dadas, mas sim como um processo permanente de interações sociais e culturais, em que estas seriam constantemente construídas e desconstruídas, obedecendo a demandas contextuais.
As redes podem ser pensadas em sentidos diversos: ou com o sistema de integração entre pessoas, mediante práticas de interação, em um sentido mais social; ou como um sistema de troca de mercadorias e bens materiais, em um sentido mais econômico; ou como trocas de informações e bens simbólicos, em um sentido mais cultural.
A globalização traz, como um dos seus efeitos mais perceptíveis, a possibilidade de se estabelecer explicitamente sistemas de interação social em rede, em que sujeitos, através de links, participam de trocas econômicas e culturais em amplas escalas, que extrapolam limites espaciais e temporais antes rígidos.
Não há dúvida, portanto, de que a ideia de uma sociedade em rede, a partir das transformações citadas acima, é pertinente e adequada aos estudos sobre as sociedades contemporâneas. No entanto, ele vem sendo tratado como dado, sem qualquer esforço de localizá-lo historicamente e mesmo de conceituá-lo minimamente. Há, portanto, um uso generalizante do conceito que só tende a esvaziá-lo, em detrimento de sua riqueza e adequação.
O que poderíamos destacar, no caso contemporâneo, em face do processo de globalização, é a expansão da rede, sua potencialização ampliada e sua explicitação. Nesse sentido, o conceito é muito pertinente, pois trata-se, sem dúvida, de uma conjuntura histórica em que os sentidos propostos para o conceito de rede (interação entre indivíduos, troca de mercadorias e fluxo de informações) estão evidenciados e acabam ocupando u m lugar central na configuração cultural, política, econômica e social. Mas é preciso cuidado para não cairmos em um reducionismo histórico, negando o quanto as questões que hoje nos inquietam fazem parte de um processo de longa duração.

Fonte: http://www.revistas.ufg.br/ci/article/viewFile/24452/15165

sábado, 27 de agosto de 2016

SAÚDE COLETIVA E O MÉTODO PAIDÉIA


            A principal forma de intervenção sobre a realidade sanitária convencionou-se Vigilância à Saúde, utilizando-se de métodos de promoção e prevenção para garantir saúde à coletividade. Organiza-se em três áreas: Vigilância Sanitária, Vigilância Epidemiológica e Vigilância Sobre o Ambiente
São áreas estritamente regulamentadas. O agir dos profissionais apoia-se em leis, decretos e portarias, caracterizando um modo de proceder com base em regras, tendo como princípio central a autoridade sanitária.
            Em realidade, a vigilância em saúde precisa ser tomada em uma perspectiva mais ampliada e com projetos que assegurem seu desenvolvimento nestas várias dimensões. Assim, a Vigilância é uma organização, e, nesse sentido, faz parte dos SUS – uma rede de pessoas, recursos e equipamentos – com autoridade legal para intervir sobre ambiente, sobre o setor produtivo, sobre os serviços de saúde e até mesmo sobre a vida particular de famílias e pessoas.
            Para além disso, também é um conjunto de conhecimentos sobre a produção de saúde e de doença. Conhecimentos técnicos, potentes para assegurar a saúde às pessoas. Uma organização com poder legal e um campo de conhecimento especializado.

- A organização, a equipe de técnicos, a lei, o saber e o poder -

Objetivo, Objeto e meio de intervenção em Saúde Coletiva
Nosso objetivo é a saúde. Porém, nosso objeto de estudo, para alcançarmos este objetivo, é o adoecer. E tudo o que faz parte desse processo de adoecimento nos diz respeito. O “objeto” sobre o qual trabalha tem, portanto, três dimensões: o ambiente, a organização social e as pessoas. No entanto, a Vigilância à Saúde costuma esquecer-se das pessoas, valorizando regras que são voltadas apenas para doenças e para ambientes. Esquecendo o sujeito, esquece que mexe com a vida de um monte de gente.

            Para alcançar o seu objetivo, a Saúde Coletiva usa técnicas de promoção ou de prevenção. A Promoção à Saúde vale-se de vários modos de intervenção: o mais organizado e sistemático é o que se convencionou denominar de Vigilância Sanitária; outro modo é a Educação em Saúde. O problema está em acabarmos reduzindo a Vigilância apenas a esta dimensão do “agir segundo regras”. As normas de saúde também são embates sociais e políticos. Neste sentindo, a Vigilância deve desenvolver um pensamento e um agir também estratégicos; ou seja: os agentes do Estado são convocados a construir aliados e parceiros na sociedade civil, bem como elaborar projetos de abrangência intersetorial, para além de sua área de competência. A Vigilância como responsabilidade do Estado, mas também da sociedade civil.

- Envolver a sociedade na defesa de sua própria saúde-

“Agir sobre” ou “Agir com” as pessoas?
Haveria uma terceira alternativa para lidar com esse impasse, uma maneira que não exclui o “Agir segundo Regras” ou o “Agir Estratégico”: trata-se do “Agir Paidéia”. Paidéia é um conceito antigo, oriundo da Grécia, que significa desenvolvimento integral das pessoas. Isso implica que um Projeto de Saúde Coletiva (de vigilância) deveria almejar não somente alterar um ambiente, mas também as pessoas e as relações sociais (de poder) envolvidas. Fazer Saúde Coletiva com as pessoas e não sobre elas. Para isso, é fundamental produzir-se um AUMENTO DA CAPACIDADE DE ANÁLISE E DE INTERVENÇÃO dos agrupamentos humanos em geral: a equipe técnica, o grupo vulnerável, a comunidade, movimentos, organizações, instituições, etc.

- Aumentar a capacidade de análise e de intervenção: saber sobre o problema e agir sobre o problema –


Saber e fazer. Teoria e Prática.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

“Sociedade Disciplinar e Sociedade de Controle: o papel da Rede nas Relações de Poder e na Organização.”


A Sociedade Disciplinar e suas Ferramentas e a Sociedade de Controle e suas Novas Ferramentas
A Sociedade Disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento. A Sociedade de Controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo virtualização junto às redes de informação.
No ambiente de trabalho, as mudanças nos modelos de gestão refletem a mudança no modelo de sociedade. Quando passamos da modernidade para a contemporaneidade, podemos inferir mudanças na forma como se organizam as relações de poder.
As relações que eram antes permeadas pela hierarquia, vigilância, autoridade e centralização do poder, passam a trabalhar sob uma perspectiva descentralizadora, onde a participação de todos é, não só esperada, como estimulada pelos núcleos que gerenciam os processos de gestão. A obediência cega, que evita o conflito, o questionamento, o embate, dá lugar a um processo educativo e inclusivo, que além de gerar nas organizações o sentimento de pertencimento à instituição, também gera o senso de responsabilidade, posto que se todos participam da gestão, a responsabilidade é de todos. Um reflexo, talvez, da própria democracia, uma forma de governo que marca, em grande parte do globo, o nosso tempo.
Além da participação nas decisões e a divisão das responsabilidades, há a perspectiva da impossibilidade de controle centralizado. Os espaços de convivência são muitos, múltiplos e com configurações plurais e infinitas. E além dos espaços físicos, hoje vivemos sob a perspectiva de um espaço virtual que influencia as relações e os julgamentos fora dele. A vigilância entre pares, nova forma de controle da sociedade, é fortalecida com a criação de uma rede virtual alimentada pela vaidade, culminando na disputa pelo poder, transpassada pela dificuldade que o ser humano tem de lidar com a própria solidão.
Se tomarmos como premissa que a Sociedade de Controle é uma evolução da Sociedade Disciplinar, podemos afirmar que a criação da rede virtual e seus desdobramentos (mercado, relações, novos modos de subjetivação) é um marco histórico. E hoje é um dos ambientes onde as relações de poder se estabelecem com facilidade, rapidez e alcance incontroláveis. A própria rede é detentora de um poder ainda incalculável. Só de pensarmos na possibilidade de acordarmos em uma determinada manhã sem a rede, podemos imaginar o caos que se instalaria em todas as esferas da sociedade.

Analítica do Poder, o Estado e a Rede
A proposta de Foucault para uma análise das relações de poder nega a necessidade de disputas baseadas em uma oposição binária: dominados e dominadores. Segundo Foucault (1979, apud MAIA, Tempo Social, 1995, p. 87)  “Deve-se, ao contrário, supor que as correlações de forças  múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de produção, nas famílias, nos grupos restritos e instituições, servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social. Estes formam, então, uma linha de força geral que atravessa os afrontamentos locais e os liga entre si; evidentemente, em troca, procedem as redistribuições, alinhamentos, homogeneizações, arranjos de série, convergências, desses afrontamentos locais.” A partir daí, não há como negar que as organizações advindas das relações pelas redes sociais constituem a expressão máxima desta ideia. Manifestações políticas que surgem em pequenas comunidades e que, através da possibilidade de comunicação ilimitada, tomam corpo e ganham uma proporção gigantesca, buscando alianças em outras comunidades, grupos, e que através da transversalidade conseguem fortalecer a própria rede, retroalimentando-se. Um dos exemplos mais consistentes é a chamada “Primavera Árabe”. Além do enorme alcance para a mobilização e organização das pessoas em manifestações contra os governos, a publicação de imagens e relatos na rede impede o segredo. É o controle entre pares na esfera das nações. A opinião pública pesa, e a pressão social exercida na rede hoje pode ser mais poderosa que um exército. O Estado, expressão máxima da organização disciplinadora, resiste, mas acaba por ser dissuadido, influenciado, transformado em outro tipo de Estado, a partir desta nova configuração do poder da sociedade.

A Rede dentro da Organização e a Organização dentro da Rede
A influência das redes sociais nas organizações ultrapassa os limites da vida individual e chegam até sua representação no mercado. O sujeito que participa de um processo seletivo para trabalhar em uma empresa tem sua imagem perante a sociedade avaliada de acordo com investigações na rede. O consumidor final do produto da empresa é consultado para fins de melhorias no produto final com o auxílio da rede. A empresa é avaliada pelo candidato a uma vaga com base em dados colhidos na rede. Por isso, quando falamos que a disciplina (base sob a qual se edificou a Sociedade Disciplinar) foi interiorizada neste novo modelo (Sociedade de Controle), não há como negar que as relações de poder na sociedade contemporânea ganham, no espaço virtual, condições de expressão máxima desta nova configuração de exercício do poder. Este é exercido fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição.  Tudo o que você faz, diz ou escreve está exposto à ser publicado na rede e usado contra você.
Em contrapartida, tudo o que você faz, diz ou escreve, pode ser publicado e usado a seu favor. O projeto de Foucault também abandona uma visão tradicional do poder onde sua atuação se baseia fundamentalmente em aspectos negativos: proibindo, censurando, interditando, reprimindo. Segundo ele (1979, apud MAIA, Tempo Social, 1995, p. 86) “o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso”. É neste sentido que as redes sociais ganham força, adeptos, e fomentam diversos tipos de usos. A rede ganha poder. Mas, ao mesmo tempo, para o indivíduo, ela também pode ser um espaço de criação, de subjetivação, de criação imagética. E é um espaço de resistência do sujeito, onde ele é capaz de lutar contra o que o esmaga. Apesar dos pesares, a Rede é um espaço de vida para o sujeito, para o coletivo e para a organização. Apesar de deter todo este poder, é só por conta da liberdade de seus usuários que nela existe todo o potencial de revolta, revisitando novamente o fundamento da projeto de Foucault, e justificando uma análise cada vez mais profunda de sua representação nas configurações das relações sociais na contemporaneidade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sociedade Disciplinar e Sociedade Controle




A mudança no modelo de sociedade, quando passamos da modernidade para a contemporaneidade, envolve mudanças na forma como se organizam as relações de poder. De uma sociedade vista por Foucault como “Disciplinar”, para um modelo de sociedade identificada por Gilles Deleuze (1992) como de “controle”. Hoje, encontramo-nos num momento de transição entre um modelo e outro. Estamos saindo de uma forma de encarceramento completo para uma espécie de controle aberto e contínuo.
A esse novo modo de organização social chamamos de sociedade de controle, que de certa forma é uma evolução da sociedade disciplinar. Não que esta tenha deixado de existir, mas foi expandida para o campo social de produção. Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada. Esta é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Logo, com o colapso das antigas instituições imperialistas, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados. As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais moveis e flexíveis que antes. Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjetividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas, é um ser global. Mesmo fora do seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar.  
A forma cíclica e o recomeço contínuo das sociedades disciplinares modernas dão lugar à modulação das sociedades de controle contemporâneas nas quais nunca se termina nada, mas exige-se do homem uma formação permanente.
Enquanto a sociedade disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento, a sociedade de controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo virtualização junto às redes de informação. Se nas sociedades disciplinares o observador deve estar de corpo presente e em tempo real a observar-nos e a vigiar-nos, nas sociedades de controle esta vigilância torna-se rarefeita e virtual. As sociedades disciplinares são essencialmente arquiteturais: a casa da família, o prédio da escola, o edifício do quartel, o edifício da fábrica. Por sua vez, as sociedades de controle apontam uma espécie de anti-arquitetura. A ausência da casa, do prédio, do edifício é fruto de um processo em que se caminha para um mundo virtual. 
É importante percebermos que na sociedade de controle, o aspecto disciplinar não desaparece, apenas muda a atuação das instituições. Os dispositivos de poder que ficam circunscritos aos espaços fechados dessas instituições passam a adquirir total fluidez, o que lhes permite atuar em todas as esferas sociais. Entre os princípios norteadores desta dinâmica, destaca-se a abolição do confinamento enquanto técnica principal disciplinadora.
As técnicas disciplinares originadas a partir do séc. XVIII destinavam-se a garantir que os indivíduos – por meio dos seus corpos – fossem submetidos a um conjunto de dispositivos de poder e de saber, baseados na vigilância permanente, na normalização dos seus comportamentos e na exposição a exames. Como forma de se produzir verdades sobre eles mesmos, essas práticas tinham como objetivo a extração máxima das potencialidades e, portanto, as instituições como escolas, fábricas, hospitais – entre outros – cumpriam um papel fundamental na implementação desses mecanismos, com o objetivo de tornar os indivíduos dóceis.
É neste sentido que a noção de confinamento, amplamente utilizada a partir do séc. XVIII, norteadora do funcionamento desses estabelecimentos, deixou de ser a estratégia principal do exercício do poder. O controle ao contrário, ultrapassa a fronteira entre o público e o privado. Aqui, reside um dos aspectos fundamentais na construção da passagem da sociedade disciplinar para a de controle: há um processo de instauração da lógica do confinamento, em toda a sociedade, sem que seja necessária a existência de muros que separem o lado de dentro das instituições do seu exterior.
Há uma vigilância contínua, concretizada pela propagação das câmaras espalhadas por toda a parte: no comercio, bancos, escolas e até mesmo nas ruas. Isto traz a dimensão da sociedade autovigiada. Uma vigilância intensificada pela disseminação de dispositivos tecnológicos de vigilância presentes até mesmo ao “ar livre”. Todos podem e querem espiar todos.
Se a principal premissa da sociedade disciplinar era fazer com que o indivíduo modelasse o seu comportamento, a partir da possibilidade de estar sendo vigiado por alguém, essa perspectiva transmutou-se. O que presenciamos na sociedade de controle é que houve uma espécie de incorporação da disciplina. A tal ponto, que os indivíduos podem estar sob os efeitos dos dispositivos disciplinares, independente, da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber.
A sociedade de controle redimensiona e amplifica os pilares constituintes da sociedade disciplinar.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Mito da Caverna e as Redes Sociais



No mito da caverna, este mundo sensível onde vivemos não é o mundo real. O mundo real é o mundo das ideias. O mundo sensível é uma cópia imperfeita do mundo das ideias, onde cada coisa tem sua ideia correspondente. Os prisioneiros que vivem no interior da caverna passam o tempo olhando sombras projetadas na parede. O verdadeiro mundo real, na alegoria, está do lado de fora: mundo do intelecto.
O que entendemos hoje como avanço nas relações sociais, afirmado por pessoas de todas as classes que utilizam as redes, lembra a analogia criada por Platão em A República. Porém, fazendo um movimento contrário, o uso abusivo das redes sociais é como um repuxo histórico, e pode estar nos levando de volta ao fundo da caverna.
As facilidades advindas da virtualização de algumas ações que não são prazerosas (pagar contas, declarar impostos, negociar) podem ser vistas como instrumentos que trazem qualidade de vida aos cidadãos. Mas, em tempos de uma sociedade que abusa de tudo para diminuir sua ansiedade e elaborar suas angústias (comida, drogas, exercícios, trabalho), é possível notar que há um exagero no uso das redes sociais com este mesmo caráter, como um alívio imediato e superficial para tensões muito profundas, que jamais se resolverão no espaço virtual. Neste sentido, as redes sociais podem ser consideradas um sucedâneo cultural, e enganando a todos faz com que acreditem que façam parte de algo especial... Ao ludibriar o internauta, que acredita estar sendo conduzido ao mundo das idéias, a rede imobiliza o seu grande potencial transformador e neutraliza seu poder resistência.
No mito de Platão, o mundo físico é uma cópia imperfeita do mundo das idéias. Para além das analogias, o mundo virtual, mito da contemporaneidade, é a cópia imperfeita da cópia imperfeita. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Caminho do meio




A forma com que você se relaciona com o seu corpo reflete o modo com que você se relaciona com o seu espírito. Por isso, se temos a pretensão de ter uma grande alma, precisamos ser delicados e cuidadosos com o nosso físico também. Respeitar os nossos limites é uma passo importante para estabelecermos uma troca mais equilibrada com o divino. 
Em contrapartida, quando sua alma está bem cuidada e recebe a atenção que lhe é devida, vemos os efeitos concretos em nosso corpo. Como se a beleza fosse um estado de espírito mesmo.
No mais, o resto acontece naturalmente, basta desejar com o coração e manter os olhos atentos!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Reflexões em Psicologia - #001




A ideia de que a ignorância traz felicidade ou de que saber menos nos faz sofrer menos é muitas vezes cruel e busca, de forma egoísta e desprezível, fazer com que os que alcançaram certo grau de compreensão da realidade se eximam da responsabilidade de promover os saberes. Ignorar o que causa o sofrimento aumenta ainda mais a angústia do indivíduo. A ignorância nunca é benéfica, não traz felicidade, tampouco conforto ao espírito. Somente a lucidez pode nos conduzir ao equilíbrio, e, talvez, a partir daí, possamos encontrar alívio para os nossos sofrimentos.
Neste sentido, a psicologia se configura como uma prática libertadora. Somos impelidos a auxiliar cada ser humano a se parir novamente, várias vezes, durante sua existência. À luz do conhecimento de si mesmo e do mundo, vemos aumentarem as chances de encontrarmos um caminho para a felicidade. Pelo menos um caminho.

"E onde a sorte há de te levar?
Saiba o caminho é o fim, mais que chegar"
(Little Joy)

*aula com Patrícia Argollo Gomes

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Resenha AMOR SEM ESCALAS - Quem veio primeiro: O homem ou o trabalho?





Coincidentemente, assisti “Amor sem escalas”, pela primeira vez, em um hotel na serra gaúcha, durante uma viagem de trabalho que me consumiria quatro dias e três noites longe de casa. Nada comparado ao ritmo alucinante em que o personagem principal, Ryan Binghan (interpretado por George Clooney) vive com suas idas e vindas pelo mundo. Mas a minha mala com três mudas de roupa espalhadas pelo quarto criaram uma atmosfera sinérgica com o filme, e a catarse foi inevitável. Se pensarmos que o trabalho, hoje, ocupa um papel central e determinante na vida das pessoas, as histórias do filme nos dão excelentes oportunidades de analisar e contextualizar alguns conceitos que a Psicologia, à luz da perspectiva institucional/organizacional, nos oferece.

Trabalho
Ryan exerce uma função extremamente delicada na empresa onde trabalha: demite pessoas. Trabalha com metas, prazos, índices, parece muitas vezes frio e distante diante de algumas situações que levariam qualquer pessoa às lágrimas. Mas em muitas profissões passa-se por isso, não? Um médico, um agente funerário, um psicólogo, muitas vezes lidam com situações delicadas com uma distância necessária para ao acompanhamento do caso. Ryan, além disso, gosta do que faz, se sente satisfeito com isso, desenvolveu habilidades que o tornaram um dos melhores de sua área. Ryan é um funcionário dedicado, ambicioso e que se realiza através de sua profissão. Ryan criou raízes com a função que desempenha, ele é a sua profissão. Não tem casa, vive em aeroportos, hotéis, ministra palestras sobre como viajar com uma mala apenas.  Esse envolvimento que criou com a seu emprego, que lhe é tão caro, que lhe é tão especial, esse laço que ele sabe ser tão importante, esse pilar que direciona a vida de cada ser humano é justamente o objeto destruído em suas visitas. Porque Ryan reúne-se com as pessoas justamente para dizer-lhes que tudo acabou. E neste momento podemos dizer que estamos pisando em um terreno fértil para a investigação dos processos psicológicos inferidos nas relações de trabalho: a subjetivação.

Relação Homem-Instituição
Porque o subjetivo? Porque o que cria este laço entre o trabalhador e sua empresa vai muito além de um salário ou de uma ocupação. Óbvio que os fatores práticos estão envolvidos: um trabalhador é o que ganha, é o que fala, é o que veste, é o lugar onde trabalha, é o que a empresa é. Mas todos os desejos que surgem a partir da relação do trabalhador moldam e transformam essa pessoa a partir dessa relação homem-instituição. Neste momento podemos ver como o homem faz a instituição e, no revés desse movimento, como a instituição faz o homem. E talvez, neste momento, possamos também entender como essa díade constrói também a sociedade em que vivemos, pois todas as configurações sociais são moldadas, através dos tempos, pelo homem e suas instituições.

Filiação
Existe um momento no processo de demissão muito duro para a maioria dos personagens que são visitados por Ryan: o momento em que a pessoa entende que não fará mais parte daquele grupo, daquela empresa, daquela instituição. Esse sofrimento é agravado pelo grau de filiação que cada um desenvolveu durante os anos de trabalho na empresa. Esse laço, de pertencimento, de fidelidade, de dependência até, é o que faz com que as empresas também obtenham sucesso na administração de seu pessoal e de suas atividades. Porém, ao mesmo tempo que um grau intenso de filiação gera frutos bons para a empresa, no momento de um desligamento gerará um grande sofrimento àquele que perde seu lugar na organização.

Competência
O papel de Ryan é usar suas habilidades para garantir que este processo de desligamento gere menos sofrimento às pessoas demitidas e diminuir os custos que a empresa têm advindos deste processo. Podemos dizer que o conceito de competência está intimamente ligado à capacidade de aproveitamento nas situações de trabalho. Ou seja, cada situação trás ao momento uma determinada necessidade, e o sujeito competente é aquele que tem as habilidades e conhecimentos necessários para lidar com cada uma destas situações. Podemos afirmar que, a partir do momento em que Ryan demonstra obter sucesso na difícil empreitada de lidar com a frustração e a decepção do outro, lidar com os imprevistos do momento do desligamento (pois nunca pode saber como a pessoa irá reagir), é persuasivo e atinge geralmente suas metas (a concretização dos acordos propostos) e ainda cria uma atmosfera de esperança e renovação para algumas pessoas, temos um exemplo claro do desenvolvimento de competências para uma determinada função. Mas são competências para este cargo, nesta empresa, sob a perspectiva do filme. Por isso o conceito de competência é tão abrangente no cenário atual: cada perfil será elaborado de acordo com as necessidades de cada cargo, o que nos leva a um cenário que cada vez mais fomenta a liberdade para a criação e o espaço para o desenvolvimento pessoal de cada trabalhador de acordo com suas atividades e de acordo com suas competências.

A renovação
Durante a história, o personagem passa por situações que o obrigam a buscar uma certa renovação, reinventando alguns cenários, revendo alguns conceitos, reavaliando sua condição na empresa e suas atividades. A partir da reinvenção da relação que têm com o trabalho, acaba por transformar também sua vida, e neste ponto voltamos ao contexto homem-instituição. O trabalho faz o homem, o homem faz o trabalho. A história de uma vida talvez possa ser também a história de toda a humanidade.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

CIÊNCIA, FILOSOFIA E ARTE: quando o afeto encontra o conceito e transforma em percepção




O texto reproduzido a seguir foi publicado na EntreLinhas que comemora os 50 anos da regulamentação da profissão de Psicólogo no Brasil. Uma ótima leitura, um texto riquíssimo e que dá conta de explorar a nossa necessidade, como acadêmicos ou já profissionais da psico, de diálogo com várias áreas do conhecimento humano. De alguma forma, já temos consciência de que só ampliando nossos olhares poderemos dar conta de uma prática multi, pluri e libertária. A dica foi da ótima Patrícia Kirst, minha professora na Ulbra.

Boa Leitura! 


CIÊNCIA, FILOSOFIA E ARTE: quando o afeto encontra o conceito e transforma em percepçãoTÂNIA GALLI ¹


Diante da data em que comemoramos os 50 anos da regulamentação da Psicologia como profissão, não seria demasiado lembrar o sentido que as datas assumem em nossas considerações:  elas apenas indicam um ponto, um pequeno ponto de uma memória que não pode  ser resumida e sequer reduzida a um ponto originário. Datas sempre são indícios de acontecimentos extemporâneos, expressam uma faceta daquilo que foi possível trazer à existência dentre a multiplicidade de devires que todo acontecimento contém. As datas são efeitos desdobrados de um  acontecimento, tornam-se históricas porque assinalam nossa sede de origens, mas, na verdade, devem ser consideradas como aquele pico brilhante que, tendo sido efetuado, segue à tona, nos apontando para algo que se produziu como possível a partir de um imenso acontecimento. As datas não assinalam uma origem, não mostram heróis e gênios inspirados; elas contemplam a direção possível de uma evolução criadora de uma multidão anônima. Referem-se sempre à expressão seletiva que podemos recolher de um combate discursivo que se travou. As datas, nada mais são do que signos a serem colocados no mundo, uma espécie de enigma dos nascimentos e das existências, cuja tradução poderá se viabilizar por diversas direções no sentido de fazê-las durar ou extinguir-se. A data aparece para ser desnaturalizada de suas aparências presentes, sendo um nó problemático que aponta antes do que foi para aquilo que virá a ser. Um aniversário e sua comemoração, antes de tudo, referem-se àquilo que está por vir, que está por se expandir, que está por evoluir de forma criadora. Assim, as comemorações não se reduzem ao que foram, mas abrem-se ao que virá. Comemorar talvez pudesse vir a ser o que está por devir em nossas vidas, em nosso mundo e em nosso trabalho ativo. Trata-se, portanto, de comemorarmos o “ainda não”, bem como a nossa persistência pelas singularizações; comemorarmos um futuro que, já estando aí, pode nos tornar testemunhas de nosso tempo e construtores da história de nosso presente. Agora, a luta por conquistas no espaço discursivo de nossa ciência e profissão se de entre as posições que tomamos frente ao viver e ao morrer das formas, frente ao problema das origens filiativas-mnemônicas e de seus incessantes começos rizomáticos. Dá-se, enfim, como combate entre sossegados e desassossegados com as verdades e ideais pronunciados como naturezas do mundo e dos homens. Para suas invenções, os desassossegados forjam estilísticas, convocam diálogos para elementos que não pertencem à psicologia, porque se evadem, em busca de coragem,  para o campo da filosofia e das artes. Buscam recursos expressivos em domínios da não-psicologia, fazem dialogar conceitos, autores e épocas em um tom atmosférico que transforma a discursividade tradicional da academia para além dos estritos caminhos de uma cognição racionalista. Realizam uma espécie de reencantamento do concreto e, não sendo poetas e romancistas, tampouco filósofos e artistas, buscam ultrapassar, desde sua condição de acadêmicos, os limites linguísticos de sua disciplina, o que significa superar suas próprias barreiras identitárias.  Falamos e construímos um momento de defesa de diálogos transdisciplinares que provocam encontros entre as estruturas e o tempo, entre arquivo e testemunho, entre história e devir. Falamos dos campos da filosofia e das artes que instigam a percebermos para além de nosso sensório-motor, dirigidos aos deslocamentos do tempo, ao movere que, como elemento do mundo, nos torna videntes de outras visões pelas quais podemos acessar grandes e sutis misérias e grandezas imperceptíveis ao nosso olho nu e ordinário. Há 50 anos, dificilmente esse tema de diálogos entre Ciência, Filosofia e Arte nos ocuparia. Sua emergência assinala-se como parte das grandes transformações ético-estéticas e políticas pelas quais passa nossa Psicologia como ciência e profissão. Sublinhamos, assim, que entrelaçar os referenciais da ciência com aqueles advindos das artes e da filosofia procede de um plano que nos supera como indivíduos e que nos torna sujeitos de uma outra formação discursiva sobre a verdade do mundo e dos homens. Trata-se de apontar para a espetacular multidão anônima que tece seus modos de conhecer por meio de rizomas a-centrados, fugidios, fragmentários e cavados na terra, como expressão máxima de um esforço para fazer perseverar a vida, ali mesmo onde ela convoca novas resolutibilidades.  A imagem-mundo produzida por meio de reconhecimentos, calcada em percepções totalizantes e unificadas, imagem interessada e representável parece ter chegado ao seu cansaço. Hoje, a partir de conhecimentos que nos mostram o mundo para além de nossas formações psíquicas, que apontam para um fora do sujeito que somos e de nossa própria linguagem, nos possibilitam e mesmo exigem um esforço para o plano do esgotamento daquilo que ainda resta a dizer, daquilo que pode elevar nossa cognição ao plano de um empirismo transcendental.  A ruína do paradigma cientificista, universalizante, neutralizante e representacional nos atira a um novo plano de buscas para talvez vir a reconciliar nosso pensamento com a própria vida em sua expressão máxima. Trata-se de nos sabermos artífices de nosso mundo e também de nossa disciplina, pois esta, a Psicologia, será sempre expressão daquilo que nós próprios somos, tornado-se um gênero do conhecimento humano mais ou menos permeável aos diversos estilos de seus tradutores e produtores.

¹ Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, docente e pesquisadora dos Programas de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional 
e de Informática na Educação. Atua a partir dos referenciais da filosofia da diferença nos temas tempo e subjetividade, corpo-arte-clínica, trabalho e tecnologias com ênfase nos processos de resistência e criação.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Saga da Mediocridade




O medíocre sempre começa a falar pedindo desculpas. Ele não tem convicção sobre nada do que pensa, fala ou faz, porque tudo o que pensa, fala ou faz não é inteiro, não é verdadeiro. O medíocre é uma cópia mal produzida de si mesmo, da sua própria incapacidade de ser por completo, e seu repertório é uma fala mal ensaiada que, há anos, exibe sem pudor. Seu ego é frágil, incapaz, mas e ele insiste em chamar atenção mesmo às custas de despertar a pena alheia. Ele não percebe a pena alheia. O medíocre só percebe a si mesmo. Ele acredita na sua genialidade medíocre, e coloca tudo na vitrine, até os rascunhos vazios.
Dê dinheiro ao medíocre e uma espécie de mau gosto nojento e soberbo saltará aos olhos de todos, suscitando o asco nos corações alheios, destruindo os sorrisos. Dê poder ao medíocre e ele consegue ser desleal até com as baratas que habitam o vão entre a cama e a parede do seu apartamento. O medíocre gosta das baratas, porque ninguém gosta delas. Dê sucesso ao medíocre e ele sucumbe sozinho, porque ninguém vai ter nem coragem de puxar o seu tapete, pois que chutar cachorro morto é fácil, difícil é manter-se sóbrio.
Essa espécie, cada vez mais presente, talvez seja um mal necessário. É a partir da observação do medíocre que às vezes criamos coragem pra produzir algo que exista no mundo, para o mundo, com o mundo. A reflexão sobre a mediocridade já é um largo passo. E talvez o desejo de não me tornar um deles seja o momento a partir do qual eu deixe de ser  mais um medíocre.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Políticas Públicas de Inclusão Digital?



Muitos foram os avanços tecnológicos alcançados em nosso país nos últimos anos. Porém, grande parte da movimentação em torno dos meios de comunicação digitais se deve a uma necessidade do próprio mercado de construir e aumentar cada vez mais um nicho com excelentes projeções lucrativas. Parte dessa movimentação para o incentivo à inclusão digital se dá justamente por conta da exploração deste mercado.
Mas o processo que se segue no Brasil vai muito além. Hoje, nossa declaração do IR só se dá via web. Alguns órgãos e empresas só aceitam reclamações por telefone ou e-mail. Dia desses soube de um caso onde uma pessoa não conseguiu cancelar sua linha telefônica pessoalmente, pois só poderia fazer isso pela Central de Atendimento, por telefone ou pela internet. A partir daí podemos ver algumas restrições a quem não tem acesso à tais meios de comunicação. Uma restrição que atinge, inclusive, seus direitos de exercer sua cidadania. Então, um sujeito sem acesso à internet não é mais um cidadão?
O que se pode verificar circulando pela web é que a necessidade de se incluir na rede fez com que os próprios cidadãos se movimentassem. Um dos bens de consumo mais procurados e adquiridos no país nos últimos anos é o computador. Todos têm sua máquina digital, postam suas fotos nas redes sociais, organizam festas, compram, vendem, procuram emprego, montam negócios, se prostituem, compram drogas, aplicam golpes. Há um mundo igual ao real dentro do mundo virtual. Não é preciso dizer que todos têm que ter acesso à internet e seus serviços. A necessidade já foi criada pelo mercado, e da mesma forma que todos os brasileiros têm uma TV na sala de estar, acredita-se que em poucos anos todos também terão um roteador para que toda a família se conecte simultaneamente e possa exercer sua cidadania.
Não acredito que há políticas públicas no pais no futebol que dêem conta de promover a inclusão digital para todos. É tão utópico quanto achar que passeatas e movimentos no facebook irão mudar alguma coisa fora da realidade virtual. A verdadeira promoção da inclusão digital está sendo feita pelo mercado.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O PÚBLICO E O PRIVADO


As discussões sobre a dualidade público-privado se fazem cada vez mais importantes no contexto social em que vivemos. Não só por toda a questão exposta por Bauman, sobre o indivíduo tornar público o que há  menos de três décadas era privado, mas também pela forte influência das redes sociais e da mídia, como um todo, na formação de opinião, e até mesmo na formação de caráter do indivíduo.

O que assistimos diariamente, quando somos bombardeados pelos veículos de comunicação com propagandas, falsas notícias, informações manipuladas, é a exposição de falsos valores a serem seguidos, para sustento de uma economia capitalista, pautada no lucro e na manutenção das grandes instituições financeiras. Sem se preocupar com o ser humano, essas ações midiáticas vivem a serviço do chamado “capitalismo selvagem”. E, no decorrer dos últimos anos, além de uma “terceirização” de serviços por parte do Estado, como afirmou Bauman, o Estado descaradamente trabalha pela e para a economia, e esquece que sua principal tarefa é defender os interesses de toda a comunidade.

A todo esse movimento, unem-se os dois em um acordo para benefício próprio: a mídia e o Estado. O colapso é iminente. E estamos, como afirma o sociólogo no vídeo, à beira de uma grande mudança nas estratégias construídas pela democracia para administrar o Estado, e, a partir desse colapso, também teremos a oportunidade de rever nossa visão de mundo. Porque, nesse jogo de interesses, não é só o Estado e a mídia que colabora com a falência social que enfrentamos. Somos também os culpados por tamanho descaso com o Homem, como espectadores ferrenhos do privado no lugar do publico, e como atuantes quando deixamos que nossas necessidades narcísicas, nossos fetiches exibicionistas e voyeurísticos nos dominem e nos entregamos às redes. Em parte, está em nossas mãos o que faremos do nosso futuro. Mas só nos daremos conta disso quando tivermos a real dimensão de nossa responsabilidade em todo esse processo. Enquanto estivermos focados no privado, nossa vida pública estará na privada.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

MUITO PRAZER – O PRAZER DE LER FREUD





Nos primeiros dias de contato com a obra Freudiana, tive a excelente idéia de “traduzir” Freud para uma linguagem mais acessível a nós, graduandos de psicologia. O nome do livro (super criativo!) seria “Freud Além da Aula”, e eu tinha como certo seu sucesso entre estudantes, acadêmicos, ou mesmo curiosos que quisessem se inteirar de nossos conhecimentos sobre a psique humana. Mal sabia eu que esse livro já havia sido escrito, sob o título de “O prazer de ler Freud”, por Juan David-Nasio, e, acho que é sucesso, baseado na escassez de exemplares e na dificuldade de adquirir um para esta resenha.
Entre tantos livros sobre Psicanálise, encontramos em “O prazer de ler Freud” um texto claro, rico, estimulante, e que consegue despertar realmente nosso interesse em ler cada vez mais as obras deste grande pensador, Sigmund Freud. Já no início do livro, o autor, Juan David-Nasio, nos informa sobre seus claros objetivos: apresentar o essencial da teoria Freudiana e se tornar um instrumento para ler e compreender Freud. E, mesmo que para muitos seja impossível conceber que se possa ter em poucas páginas o essencial da teoria psicanalítica, o autor consegue, sem sobra de dúvida, pelo menos conduzir o leitor de forma precisa e sedutora, à compreensão de muitos conceitos chave para o entendimento da Psicanálise, o que é de grande valia para nós, estudantes de psicologia.
Nasio, é um psicanalista argentino radicado na França, é contemporâneo de Jacques Lacan e autor de inúmeras obras, tais como "A Histeria", "Como trabalha um psicanalista?", ‘O Olhar em Psicanálise", “Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan", entre outras. Atualmente se dedica à prática clínica e leciona na Universidade Paris VII, além de se envolver constantemente com a transmissão da Psicanálise.
Nasio tem uma característica peculiar; ainda que passe por temas densos e complexos, escreve fácil, o que é bastante diferente de simplificar as coisas. Transmitir a Psicanálise é uma tarefa que requer um constante diálogo com interlocutores que não são claramente identificáveis, como freqüentemente Freud fazia em seus textos.
O desejo do autor, é que com esse livro, o leitor possa ter prazer ao ler Freud. "o prazer de pensar e de compreender o nosso funcionamento psíquico. "(p.15), e para isso ele destaca alguns conceitos fundamentais onde se fundam o edifício freudiano; o inconsciente, o recalcamento, a sexualidade, o complexo de Édipo, o eu-isso-supereu, a identificação e a transferência no tratamento analítico. E como falar "fácil" desses conceitos?
O autor demonstra muita habilidade, com notável empenho em achar palavras que exprimam com clareza surpreendentes aspectos que levaríamos algum tempo tentando compreender nos livros. Destacam-se alguns que certamente ilustram nossa impressão, como por exemplo, no caso do recalcamento em que faz uso de um exemplo da moça que tinha uma fobia por aranhas, mas que na verdade isso a remetia a um desejo proibido pelo pai, que tinha mãos aveludadas, como o dorso de uma aranha. Isso mostra que Nasio segue os passos de Freud, pois este também recheava de exemplos do cotidiano e da clínica seus relatos, o que favorece certo encantamento no leitor, que pode vislumbrar nos relatos alguma possibilidade de também escrever a partir de sua experiência pessoal, de se "contagiar" por esse entusiasmo na prática psicanalítica. 
Os principais temas desenvolvidos no livro são: o inconsciente, o recalcamento, o narcisismo, a sexualidade, pulsões de vida e de morte, o complexo de Édipo, as três instâncias psíquicas que são o eu, o isso e o supereu, o conceito de identificação e a transferência no tratamento analítico. A o transitar por todos estes conceitos, ele consegue fazer com que o leitor atento internalize a base da Teoria Psicanalítica, dando-nos ferramentas importantes para o desenvolvimento de um saber teórico que, no momento oportuno, será utilizado para embasar nossos saberes clínicos.
O autor finaliza o livro de maneira prática, com citações e excertos que julga ter relevada importância na obra de Freud e, como já havia dito no princípio, torna a publicação uma espécie de instrumento para que possamos ler interpretar e compreender os escritos do grande mestre da psicanálise. Uma obra limpa, clara, que vai direto ao ponto e consegue nos despertar ainda mais a curiosidade e o encantamento pelos escritos de Sigmund Freud.


O Prazer de Ler Freud
Nasio, Juan-david
JORGE ZAHAR 


Onde encontrar: 

Livraria Entrelinhas

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Fábrica do Poema




Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo;
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo;
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?

(Adriana Calcanhotto)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE INFANTIL




Em suas investigações na prática clínica sobre as causas e funcionamento das neuroses, Freud descobriu que a grande maioria de pensamentos e desejos reprimidos referiam-se a con­flitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida dos indivíduos. Em seus estudos, as experiên­cias de caráter traumático, reprimidas, que se configuravam co­mo origem dos sintomas atuais surgem de vivências na infância, e confirmava-se, desta forma, que as ocorrências deste período da vida deixam marcas pro­fundas na estruturação da personalidade. As descobertas colo­cam a sexualidade no centro da vida psíquica, e é postulada a existência da sexualidade infantil. Estas afirmações tiveram pro­fundas repercussões na sociedade puritana da época, pela con­cepção vigente da infância como "inocente".
Os principais aspectos destas descobertas são:
  • A função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento, e não só a partir da puberdade co­mo afirmavam as idéias dominantes;
  • O período de desenvolvimento da sexualidade é longo e complexo até chegar à sexualidade adulta, onde as fun­ções de reprodução e de obtenção do prazer podem es­tar associadas, tanto no homem como na mulher. Esta afirmação contrariava as idéias predominantes de que o sexo estava associado, exclusivamente, à reprodução;
  • A libido, nas palavras de Freud, é "a energia dos instin­tos sexuais e só deles".
No processo de desenvolvimento psicossexual, o indivíduo tem, nos primeiros tempos de vida, a função sexual ligada à so­brevivência, e portanto o prazer é encontrado no próprio cor­po. O corpo é erotizado, isto é, as excitações sexuais estão loca­lizadas em partes do corpo, e "há um desenvolvimento progres­sivo que levou Freud a postular as fases do desenvolvimento se­xual em: fase oral (a zona de erotização é a boca), fase anal (a zona de erotização é o ânus), fase fálica (a zona de erotiza­ção é o órgão sexual), em seguida vem um período de latência, que se prolonga até a puberdade e se caracteriza por uma dimi­nuição das atividades sexuais, isto é, há um "intervalo" na evo­lução da sexualidade. E, finalmente, na adolescência é atingida a última fase, isto é, a fase genital, quando o objeto de erotiza­ção ou de desejo não está mais no próprio corpo, mas em um objeto externo ao indivíduo - o outro.
AS FASES DO DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL
Fase Oral – de 0 à 18 meses*
Desde o nascimento, necessidade e gratificação estão ambas concentradas predominantemente em volta dos lábios, língua e, um pouco mais tarde, dos dentes. A pulsão básica do bebê não é social ou interpessoal, é apenas receber alimento para atenuar as tensões de fome e sede. Enquanto é alimentada, a criança é também confortada, aninhada, acalentada e acariciada. No início, ela associa prazer e redução da tensão ao processo de alimentação.
A boca é a primeira área do corpo que o bebê pode controlar; a maior parte da energia libidinal disponível é direcionada ou focalizada nesta área. Conforme a criança cresce, outras áreas do corpo desenvolvem-se e tornam-se importantes regiões de gratificação. Entretanto, alguma energia é permanentemente fixada ou catexizada nos meios de gratificação oral. Em adultos, existem muitos hábitos orais bem desenvolvidos e um interesse contínuo em manter prazeres orais. Comer chupar, morder, lamber ou beijar com estalo, são expressões físicas destes interesses. Pessoas que mordicam constantemente, fumantes e os que costumam comer demais podem ser pessoas parcialmente fixadas na fase oral, pessoas cuja maturação psicológica pode não ter se completado.
A fase oral tardia, depois do aparecimento dos dentes, inclui a gratificação dos instintos agressivos. Morder o seio, que causa dor à mãe e leva a um retraimento do seio, é um exemplo deste tipo de comportamento. O sarcasmo do adulto, o arrancar o alimento de alguém, a fofoca, têm sido descritos como relacionados a esta fase do desenvolvimento.
A retenção de algum interesse em prazeres orais é normal. Este interesse só pode ser encarado como patológico se for o modo dominante de gratificação, isto é, se uma pessoa for excessivamente dependente de hábitos orais para aliviar a ansiedade.
Fase Anal - 18 meses à 3 anos anos e meio*
À medida que a criança cresce, novas áreas de tensão e gratificação são trazidas à consciência. É a fase em que as crianças geralmente aprendem a controlar os esfíncteres anais e a bexiga. A criança presta uma atenção especial à micção e à evacuação. O treinamento da toalete desperta um interesse natural pela autodescoberta. A obtenção do controle fisiológico é ligada à percepção de que esse controle é uma nova fonte de prazer. Além disso, as crianças aprendem com rapidez que o crescente nível de controle lhes traz atenção e elogios por parte de seus pais. O inverso também é verdadeiro; o interesse dos pais no treinamento da higiene permite à criança exigir atenção tanto pelo controle bem sucedido quanto pelos "erros".
Características adultas que estão associadas à fixação parcial na fase anal são: ordem, parcimônia e obstinação. Freud observou que esses três traços em geral são encontrados juntos.
Fase fálica – 3 anos e meio à 5 anos*
Bem cedo, já a a partir dos três anos e meio, a criança entra na fase fálica, que focaliza as áreas genitais do corpo. Freud afirmava que essa fase é melhor caracterizada por "fálica" uma vez que é o período em que uma criança se dá conta de seu pênis ou da falta de um. É a primeira fase em que as crianças tornam-se conscientes das diferenças sexuais.
O desejo de ter um pênis e a aparente descoberta de que lhe falta "algo" constituem um momento crítico no desenvolvimento feminino. Segundo Freud: "A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina.
Freud tentou compreender as tensões que uma criança vivencia quando sente excitação "sexual", isto é, o prazer a partir da estimulação de áreas genitais. Esta excitação está ligada, na mente da criança, à presença física próxima de seus pais. O desejo desse contato torna-se cada vez mais difícil de ser satisfeito pela criança, ela luta pela intimidade que seus pais compartilham entre si. Esta fase caracteriza-se pelo desejo da criança de ir para a cama de seus pais e pelo ciúme da atenção que seus pais dão um ao outro, ao invés de dá-la a criança.
Freud viu crianças nesta fase reagirem a seus pais como ameaça potencial à satisfação de suas necessidades. Assim, para o menino que deseja estar próximo de sua mãe, o pai assume alguns tributos de um rival. Ao mesmo tempo, o menino ainda quer o amor e a afeição de seu pai e, por isso, sua mãe é vista como um rival. A criança está na posição insustentável de querer e temer ambos os pais.
Latência – 5 anos à puberdade*
Seja qual for a forma que realmente toma a resolução da luta, a maioria das crianças parece modificar seu apego aos pais em algum ponto depois dos cinco anos de idade e voltam-se para o relacionamento com seus companheiros, atividades escolares, esportes e outras habilidades. Esta época, da idade de 5, 6 anos até o começo da puberdade, é denominada período de latência, um tempo em que os desejos sexuais não-resolvidos da fase fálica não são atendidos pelo ego e cuja repressão é feita, com sucesso, pelo superego. " A partir desse ponto, até a puberdade, estende-se o que se conhece por período de latência. Durante ele a sexualidade normalmente não avança mais, pelo contrário, os anseios sexuais diminuem de vigor e são abandonadas e esquecidas muitas coisas que a criança fazia e conhecia. Nesse período da vida, depois que a primeira eflorescência da sexualidade feneceu, surgem atitudes do ego como vergonha, repulsa e moralidade, que estão destinadas a fazer frente à tempestade ulterior da puberdade e a alicerçar o caminho dos desejos sexuais que se vão despertando" (1926, livro 25 p. 128 na ed. bras.).
Fase Genital – Início da Puberdade à fase adulta.
A fase final do desenvolvimento biológico e psicológico ocorre com início da puberdade e o conseqüente retorno da energia libidinal aos órgãos sexuais. Neste momento, meninos e meninas estão ambos conscientes de suas identidades sexuais distintas e começam a buscar formas de satisfazer suas necessidades eróticas e interpessoais.
O complexo Edipiano
No decorrer dessas fases, vários processos e ocorrências sucedem-se. Desses eventos, destaca-se o complexo de Édipo, pois é em torno dele que ocorre a estruturação da personalida­de do indivíduo. Acontece entre 2 e 5 anos. No complexo de Édipo, a mãe é o objeto de desejo do menino, e o pai é o rival que impede seu acesso ao objeto desejado. Ele procura então assemelhar-se ao pai para "ter" a mãe, escolhendo-o como mo­delo de comportamento, passando a internalizar as regras e as normas sociais representadas e impostas pela autoridade pater­na. Posteriormente, por medo da perda do amor do pai, "desis­te" da mãe, isto é, a mãe é "trocada" pela riqueza do mundo social e cultural, e o garoto pode, então, participar do mundo social, pois tem suas regras básicas internalizadas através da iden­tificação com o pai.
Para as meninas, o problema é similar, mas na sua expressão e solução tomam um rumo diferente. A menina deseja possuir seu pai e vê sua mãe como a maior rival. Enquanto os meninos reprimem seus sentimentos, em parte pelo medo da castração, a necessidade da menina de reprimir seus desejos é menos severa, menos total. A diferença em intensidade permite a elas "permanecerem nela (situação edipiana) por um tempo indeterminado; destroem-na tardiamente e, ainda assim, de modo incompleto" (1933, livro 29, p.35 na ed. bras.).

[*] As fases do desenvolvimento psicossexual não são delimitadas com precisão, portanto todas as idades apresentadas são consideradas como “aproximadas” à fase de transição, e mudam de caso para caso de acordo com as vivências do sujeito.