quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Resenha AMOR SEM ESCALAS - Quem veio primeiro: O homem ou o trabalho?





Coincidentemente, assisti “Amor sem escalas”, pela primeira vez, em um hotel na serra gaúcha, durante uma viagem de trabalho que me consumiria quatro dias e três noites longe de casa. Nada comparado ao ritmo alucinante em que o personagem principal, Ryan Binghan (interpretado por George Clooney) vive com suas idas e vindas pelo mundo. Mas a minha mala com três mudas de roupa espalhadas pelo quarto criaram uma atmosfera sinérgica com o filme, e a catarse foi inevitável. Se pensarmos que o trabalho, hoje, ocupa um papel central e determinante na vida das pessoas, as histórias do filme nos dão excelentes oportunidades de analisar e contextualizar alguns conceitos que a Psicologia, à luz da perspectiva institucional/organizacional, nos oferece.

Trabalho
Ryan exerce uma função extremamente delicada na empresa onde trabalha: demite pessoas. Trabalha com metas, prazos, índices, parece muitas vezes frio e distante diante de algumas situações que levariam qualquer pessoa às lágrimas. Mas em muitas profissões passa-se por isso, não? Um médico, um agente funerário, um psicólogo, muitas vezes lidam com situações delicadas com uma distância necessária para ao acompanhamento do caso. Ryan, além disso, gosta do que faz, se sente satisfeito com isso, desenvolveu habilidades que o tornaram um dos melhores de sua área. Ryan é um funcionário dedicado, ambicioso e que se realiza através de sua profissão. Ryan criou raízes com a função que desempenha, ele é a sua profissão. Não tem casa, vive em aeroportos, hotéis, ministra palestras sobre como viajar com uma mala apenas.  Esse envolvimento que criou com a seu emprego, que lhe é tão caro, que lhe é tão especial, esse laço que ele sabe ser tão importante, esse pilar que direciona a vida de cada ser humano é justamente o objeto destruído em suas visitas. Porque Ryan reúne-se com as pessoas justamente para dizer-lhes que tudo acabou. E neste momento podemos dizer que estamos pisando em um terreno fértil para a investigação dos processos psicológicos inferidos nas relações de trabalho: a subjetivação.

Relação Homem-Instituição
Porque o subjetivo? Porque o que cria este laço entre o trabalhador e sua empresa vai muito além de um salário ou de uma ocupação. Óbvio que os fatores práticos estão envolvidos: um trabalhador é o que ganha, é o que fala, é o que veste, é o lugar onde trabalha, é o que a empresa é. Mas todos os desejos que surgem a partir da relação do trabalhador moldam e transformam essa pessoa a partir dessa relação homem-instituição. Neste momento podemos ver como o homem faz a instituição e, no revés desse movimento, como a instituição faz o homem. E talvez, neste momento, possamos também entender como essa díade constrói também a sociedade em que vivemos, pois todas as configurações sociais são moldadas, através dos tempos, pelo homem e suas instituições.

Filiação
Existe um momento no processo de demissão muito duro para a maioria dos personagens que são visitados por Ryan: o momento em que a pessoa entende que não fará mais parte daquele grupo, daquela empresa, daquela instituição. Esse sofrimento é agravado pelo grau de filiação que cada um desenvolveu durante os anos de trabalho na empresa. Esse laço, de pertencimento, de fidelidade, de dependência até, é o que faz com que as empresas também obtenham sucesso na administração de seu pessoal e de suas atividades. Porém, ao mesmo tempo que um grau intenso de filiação gera frutos bons para a empresa, no momento de um desligamento gerará um grande sofrimento àquele que perde seu lugar na organização.

Competência
O papel de Ryan é usar suas habilidades para garantir que este processo de desligamento gere menos sofrimento às pessoas demitidas e diminuir os custos que a empresa têm advindos deste processo. Podemos dizer que o conceito de competência está intimamente ligado à capacidade de aproveitamento nas situações de trabalho. Ou seja, cada situação trás ao momento uma determinada necessidade, e o sujeito competente é aquele que tem as habilidades e conhecimentos necessários para lidar com cada uma destas situações. Podemos afirmar que, a partir do momento em que Ryan demonstra obter sucesso na difícil empreitada de lidar com a frustração e a decepção do outro, lidar com os imprevistos do momento do desligamento (pois nunca pode saber como a pessoa irá reagir), é persuasivo e atinge geralmente suas metas (a concretização dos acordos propostos) e ainda cria uma atmosfera de esperança e renovação para algumas pessoas, temos um exemplo claro do desenvolvimento de competências para uma determinada função. Mas são competências para este cargo, nesta empresa, sob a perspectiva do filme. Por isso o conceito de competência é tão abrangente no cenário atual: cada perfil será elaborado de acordo com as necessidades de cada cargo, o que nos leva a um cenário que cada vez mais fomenta a liberdade para a criação e o espaço para o desenvolvimento pessoal de cada trabalhador de acordo com suas atividades e de acordo com suas competências.

A renovação
Durante a história, o personagem passa por situações que o obrigam a buscar uma certa renovação, reinventando alguns cenários, revendo alguns conceitos, reavaliando sua condição na empresa e suas atividades. A partir da reinvenção da relação que têm com o trabalho, acaba por transformar também sua vida, e neste ponto voltamos ao contexto homem-instituição. O trabalho faz o homem, o homem faz o trabalho. A história de uma vida talvez possa ser também a história de toda a humanidade.

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