sábado, 27 de agosto de 2016

SAÚDE COLETIVA E O MÉTODO PAIDÉIA


            A principal forma de intervenção sobre a realidade sanitária convencionou-se Vigilância à Saúde, utilizando-se de métodos de promoção e prevenção para garantir saúde à coletividade. Organiza-se em três áreas: Vigilância Sanitária, Vigilância Epidemiológica e Vigilância Sobre o Ambiente
São áreas estritamente regulamentadas. O agir dos profissionais apoia-se em leis, decretos e portarias, caracterizando um modo de proceder com base em regras, tendo como princípio central a autoridade sanitária.
            Em realidade, a vigilância em saúde precisa ser tomada em uma perspectiva mais ampliada e com projetos que assegurem seu desenvolvimento nestas várias dimensões. Assim, a Vigilância é uma organização, e, nesse sentido, faz parte dos SUS – uma rede de pessoas, recursos e equipamentos – com autoridade legal para intervir sobre ambiente, sobre o setor produtivo, sobre os serviços de saúde e até mesmo sobre a vida particular de famílias e pessoas.
            Para além disso, também é um conjunto de conhecimentos sobre a produção de saúde e de doença. Conhecimentos técnicos, potentes para assegurar a saúde às pessoas. Uma organização com poder legal e um campo de conhecimento especializado.

- A organização, a equipe de técnicos, a lei, o saber e o poder -

Objetivo, Objeto e meio de intervenção em Saúde Coletiva
Nosso objetivo é a saúde. Porém, nosso objeto de estudo, para alcançarmos este objetivo, é o adoecer. E tudo o que faz parte desse processo de adoecimento nos diz respeito. O “objeto” sobre o qual trabalha tem, portanto, três dimensões: o ambiente, a organização social e as pessoas. No entanto, a Vigilância à Saúde costuma esquecer-se das pessoas, valorizando regras que são voltadas apenas para doenças e para ambientes. Esquecendo o sujeito, esquece que mexe com a vida de um monte de gente.

            Para alcançar o seu objetivo, a Saúde Coletiva usa técnicas de promoção ou de prevenção. A Promoção à Saúde vale-se de vários modos de intervenção: o mais organizado e sistemático é o que se convencionou denominar de Vigilância Sanitária; outro modo é a Educação em Saúde. O problema está em acabarmos reduzindo a Vigilância apenas a esta dimensão do “agir segundo regras”. As normas de saúde também são embates sociais e políticos. Neste sentindo, a Vigilância deve desenvolver um pensamento e um agir também estratégicos; ou seja: os agentes do Estado são convocados a construir aliados e parceiros na sociedade civil, bem como elaborar projetos de abrangência intersetorial, para além de sua área de competência. A Vigilância como responsabilidade do Estado, mas também da sociedade civil.

- Envolver a sociedade na defesa de sua própria saúde-

“Agir sobre” ou “Agir com” as pessoas?
Haveria uma terceira alternativa para lidar com esse impasse, uma maneira que não exclui o “Agir segundo Regras” ou o “Agir Estratégico”: trata-se do “Agir Paidéia”. Paidéia é um conceito antigo, oriundo da Grécia, que significa desenvolvimento integral das pessoas. Isso implica que um Projeto de Saúde Coletiva (de vigilância) deveria almejar não somente alterar um ambiente, mas também as pessoas e as relações sociais (de poder) envolvidas. Fazer Saúde Coletiva com as pessoas e não sobre elas. Para isso, é fundamental produzir-se um AUMENTO DA CAPACIDADE DE ANÁLISE E DE INTERVENÇÃO dos agrupamentos humanos em geral: a equipe técnica, o grupo vulnerável, a comunidade, movimentos, organizações, instituições, etc.

- Aumentar a capacidade de análise e de intervenção: saber sobre o problema e agir sobre o problema –


Saber e fazer. Teoria e Prática.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

“Sociedade Disciplinar e Sociedade de Controle: o papel da Rede nas Relações de Poder e na Organização.”


A Sociedade Disciplinar e suas Ferramentas e a Sociedade de Controle e suas Novas Ferramentas
A Sociedade Disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento. A Sociedade de Controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo virtualização junto às redes de informação.
No ambiente de trabalho, as mudanças nos modelos de gestão refletem a mudança no modelo de sociedade. Quando passamos da modernidade para a contemporaneidade, podemos inferir mudanças na forma como se organizam as relações de poder.
As relações que eram antes permeadas pela hierarquia, vigilância, autoridade e centralização do poder, passam a trabalhar sob uma perspectiva descentralizadora, onde a participação de todos é, não só esperada, como estimulada pelos núcleos que gerenciam os processos de gestão. A obediência cega, que evita o conflito, o questionamento, o embate, dá lugar a um processo educativo e inclusivo, que além de gerar nas organizações o sentimento de pertencimento à instituição, também gera o senso de responsabilidade, posto que se todos participam da gestão, a responsabilidade é de todos. Um reflexo, talvez, da própria democracia, uma forma de governo que marca, em grande parte do globo, o nosso tempo.
Além da participação nas decisões e a divisão das responsabilidades, há a perspectiva da impossibilidade de controle centralizado. Os espaços de convivência são muitos, múltiplos e com configurações plurais e infinitas. E além dos espaços físicos, hoje vivemos sob a perspectiva de um espaço virtual que influencia as relações e os julgamentos fora dele. A vigilância entre pares, nova forma de controle da sociedade, é fortalecida com a criação de uma rede virtual alimentada pela vaidade, culminando na disputa pelo poder, transpassada pela dificuldade que o ser humano tem de lidar com a própria solidão.
Se tomarmos como premissa que a Sociedade de Controle é uma evolução da Sociedade Disciplinar, podemos afirmar que a criação da rede virtual e seus desdobramentos (mercado, relações, novos modos de subjetivação) é um marco histórico. E hoje é um dos ambientes onde as relações de poder se estabelecem com facilidade, rapidez e alcance incontroláveis. A própria rede é detentora de um poder ainda incalculável. Só de pensarmos na possibilidade de acordarmos em uma determinada manhã sem a rede, podemos imaginar o caos que se instalaria em todas as esferas da sociedade.

Analítica do Poder, o Estado e a Rede
A proposta de Foucault para uma análise das relações de poder nega a necessidade de disputas baseadas em uma oposição binária: dominados e dominadores. Segundo Foucault (1979, apud MAIA, Tempo Social, 1995, p. 87)  “Deve-se, ao contrário, supor que as correlações de forças  múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de produção, nas famílias, nos grupos restritos e instituições, servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social. Estes formam, então, uma linha de força geral que atravessa os afrontamentos locais e os liga entre si; evidentemente, em troca, procedem as redistribuições, alinhamentos, homogeneizações, arranjos de série, convergências, desses afrontamentos locais.” A partir daí, não há como negar que as organizações advindas das relações pelas redes sociais constituem a expressão máxima desta ideia. Manifestações políticas que surgem em pequenas comunidades e que, através da possibilidade de comunicação ilimitada, tomam corpo e ganham uma proporção gigantesca, buscando alianças em outras comunidades, grupos, e que através da transversalidade conseguem fortalecer a própria rede, retroalimentando-se. Um dos exemplos mais consistentes é a chamada “Primavera Árabe”. Além do enorme alcance para a mobilização e organização das pessoas em manifestações contra os governos, a publicação de imagens e relatos na rede impede o segredo. É o controle entre pares na esfera das nações. A opinião pública pesa, e a pressão social exercida na rede hoje pode ser mais poderosa que um exército. O Estado, expressão máxima da organização disciplinadora, resiste, mas acaba por ser dissuadido, influenciado, transformado em outro tipo de Estado, a partir desta nova configuração do poder da sociedade.

A Rede dentro da Organização e a Organização dentro da Rede
A influência das redes sociais nas organizações ultrapassa os limites da vida individual e chegam até sua representação no mercado. O sujeito que participa de um processo seletivo para trabalhar em uma empresa tem sua imagem perante a sociedade avaliada de acordo com investigações na rede. O consumidor final do produto da empresa é consultado para fins de melhorias no produto final com o auxílio da rede. A empresa é avaliada pelo candidato a uma vaga com base em dados colhidos na rede. Por isso, quando falamos que a disciplina (base sob a qual se edificou a Sociedade Disciplinar) foi interiorizada neste novo modelo (Sociedade de Controle), não há como negar que as relações de poder na sociedade contemporânea ganham, no espaço virtual, condições de expressão máxima desta nova configuração de exercício do poder. Este é exercido fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição.  Tudo o que você faz, diz ou escreve está exposto à ser publicado na rede e usado contra você.
Em contrapartida, tudo o que você faz, diz ou escreve, pode ser publicado e usado a seu favor. O projeto de Foucault também abandona uma visão tradicional do poder onde sua atuação se baseia fundamentalmente em aspectos negativos: proibindo, censurando, interditando, reprimindo. Segundo ele (1979, apud MAIA, Tempo Social, 1995, p. 86) “o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso”. É neste sentido que as redes sociais ganham força, adeptos, e fomentam diversos tipos de usos. A rede ganha poder. Mas, ao mesmo tempo, para o indivíduo, ela também pode ser um espaço de criação, de subjetivação, de criação imagética. E é um espaço de resistência do sujeito, onde ele é capaz de lutar contra o que o esmaga. Apesar dos pesares, a Rede é um espaço de vida para o sujeito, para o coletivo e para a organização. Apesar de deter todo este poder, é só por conta da liberdade de seus usuários que nela existe todo o potencial de revolta, revisitando novamente o fundamento da projeto de Foucault, e justificando uma análise cada vez mais profunda de sua representação nas configurações das relações sociais na contemporaneidade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sociedade Disciplinar e Sociedade Controle




A mudança no modelo de sociedade, quando passamos da modernidade para a contemporaneidade, envolve mudanças na forma como se organizam as relações de poder. De uma sociedade vista por Foucault como “Disciplinar”, para um modelo de sociedade identificada por Gilles Deleuze (1992) como de “controle”. Hoje, encontramo-nos num momento de transição entre um modelo e outro. Estamos saindo de uma forma de encarceramento completo para uma espécie de controle aberto e contínuo.
A esse novo modo de organização social chamamos de sociedade de controle, que de certa forma é uma evolução da sociedade disciplinar. Não que esta tenha deixado de existir, mas foi expandida para o campo social de produção. Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada. Esta é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Logo, com o colapso das antigas instituições imperialistas, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados. As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais moveis e flexíveis que antes. Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjetividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas, é um ser global. Mesmo fora do seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar.  
A forma cíclica e o recomeço contínuo das sociedades disciplinares modernas dão lugar à modulação das sociedades de controle contemporâneas nas quais nunca se termina nada, mas exige-se do homem uma formação permanente.
Enquanto a sociedade disciplinar se constitui de poderes transversais que se dissimulam através das instituições modernas e de estratégias de disciplina e confinamento, a sociedade de controle é caracterizada pela invisibilidade e pelo virtualização junto às redes de informação. Se nas sociedades disciplinares o observador deve estar de corpo presente e em tempo real a observar-nos e a vigiar-nos, nas sociedades de controle esta vigilância torna-se rarefeita e virtual. As sociedades disciplinares são essencialmente arquiteturais: a casa da família, o prédio da escola, o edifício do quartel, o edifício da fábrica. Por sua vez, as sociedades de controle apontam uma espécie de anti-arquitetura. A ausência da casa, do prédio, do edifício é fruto de um processo em que se caminha para um mundo virtual. 
É importante percebermos que na sociedade de controle, o aspecto disciplinar não desaparece, apenas muda a atuação das instituições. Os dispositivos de poder que ficam circunscritos aos espaços fechados dessas instituições passam a adquirir total fluidez, o que lhes permite atuar em todas as esferas sociais. Entre os princípios norteadores desta dinâmica, destaca-se a abolição do confinamento enquanto técnica principal disciplinadora.
As técnicas disciplinares originadas a partir do séc. XVIII destinavam-se a garantir que os indivíduos – por meio dos seus corpos – fossem submetidos a um conjunto de dispositivos de poder e de saber, baseados na vigilância permanente, na normalização dos seus comportamentos e na exposição a exames. Como forma de se produzir verdades sobre eles mesmos, essas práticas tinham como objetivo a extração máxima das potencialidades e, portanto, as instituições como escolas, fábricas, hospitais – entre outros – cumpriam um papel fundamental na implementação desses mecanismos, com o objetivo de tornar os indivíduos dóceis.
É neste sentido que a noção de confinamento, amplamente utilizada a partir do séc. XVIII, norteadora do funcionamento desses estabelecimentos, deixou de ser a estratégia principal do exercício do poder. O controle ao contrário, ultrapassa a fronteira entre o público e o privado. Aqui, reside um dos aspectos fundamentais na construção da passagem da sociedade disciplinar para a de controle: há um processo de instauração da lógica do confinamento, em toda a sociedade, sem que seja necessária a existência de muros que separem o lado de dentro das instituições do seu exterior.
Há uma vigilância contínua, concretizada pela propagação das câmaras espalhadas por toda a parte: no comercio, bancos, escolas e até mesmo nas ruas. Isto traz a dimensão da sociedade autovigiada. Uma vigilância intensificada pela disseminação de dispositivos tecnológicos de vigilância presentes até mesmo ao “ar livre”. Todos podem e querem espiar todos.
Se a principal premissa da sociedade disciplinar era fazer com que o indivíduo modelasse o seu comportamento, a partir da possibilidade de estar sendo vigiado por alguém, essa perspectiva transmutou-se. O que presenciamos na sociedade de controle é que houve uma espécie de incorporação da disciplina. A tal ponto, que os indivíduos podem estar sob os efeitos dos dispositivos disciplinares, independente, da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber.
A sociedade de controle redimensiona e amplifica os pilares constituintes da sociedade disciplinar.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Mito da Caverna e as Redes Sociais



No mito da caverna, este mundo sensível onde vivemos não é o mundo real. O mundo real é o mundo das ideias. O mundo sensível é uma cópia imperfeita do mundo das ideias, onde cada coisa tem sua ideia correspondente. Os prisioneiros que vivem no interior da caverna passam o tempo olhando sombras projetadas na parede. O verdadeiro mundo real, na alegoria, está do lado de fora: mundo do intelecto.
O que entendemos hoje como avanço nas relações sociais, afirmado por pessoas de todas as classes que utilizam as redes, lembra a analogia criada por Platão em A República. Porém, fazendo um movimento contrário, o uso abusivo das redes sociais é como um repuxo histórico, e pode estar nos levando de volta ao fundo da caverna.
As facilidades advindas da virtualização de algumas ações que não são prazerosas (pagar contas, declarar impostos, negociar) podem ser vistas como instrumentos que trazem qualidade de vida aos cidadãos. Mas, em tempos de uma sociedade que abusa de tudo para diminuir sua ansiedade e elaborar suas angústias (comida, drogas, exercícios, trabalho), é possível notar que há um exagero no uso das redes sociais com este mesmo caráter, como um alívio imediato e superficial para tensões muito profundas, que jamais se resolverão no espaço virtual. Neste sentido, as redes sociais podem ser consideradas um sucedâneo cultural, e enganando a todos faz com que acreditem que façam parte de algo especial... Ao ludibriar o internauta, que acredita estar sendo conduzido ao mundo das idéias, a rede imobiliza o seu grande potencial transformador e neutraliza seu poder resistência.
No mito de Platão, o mundo físico é uma cópia imperfeita do mundo das idéias. Para além das analogias, o mundo virtual, mito da contemporaneidade, é a cópia imperfeita da cópia imperfeita. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Caminho do meio




A forma com que você se relaciona com o seu corpo reflete o modo com que você se relaciona com o seu espírito. Por isso, se temos a pretensão de ter uma grande alma, precisamos ser delicados e cuidadosos com o nosso físico também. Respeitar os nossos limites é uma passo importante para estabelecermos uma troca mais equilibrada com o divino. 
Em contrapartida, quando sua alma está bem cuidada e recebe a atenção que lhe é devida, vemos os efeitos concretos em nosso corpo. Como se a beleza fosse um estado de espírito mesmo.
No mais, o resto acontece naturalmente, basta desejar com o coração e manter os olhos atentos!

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Reflexões em Psicologia - #001




A ideia de que a ignorância traz felicidade ou de que saber menos nos faz sofrer menos é muitas vezes cruel e busca, de forma egoísta e desprezível, fazer com que os que alcançaram certo grau de compreensão da realidade se eximam da responsabilidade de promover os saberes. Ignorar o que causa o sofrimento aumenta ainda mais a angústia do indivíduo. A ignorância nunca é benéfica, não traz felicidade, tampouco conforto ao espírito. Somente a lucidez pode nos conduzir ao equilíbrio, e, talvez, a partir daí, possamos encontrar alívio para os nossos sofrimentos.
Neste sentido, a psicologia se configura como uma prática libertadora. Somos impelidos a auxiliar cada ser humano a se parir novamente, várias vezes, durante sua existência. À luz do conhecimento de si mesmo e do mundo, vemos aumentarem as chances de encontrarmos um caminho para a felicidade. Pelo menos um caminho.

"E onde a sorte há de te levar?
Saiba o caminho é o fim, mais que chegar"
(Little Joy)

*aula com Patrícia Argollo Gomes

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Resenha AMOR SEM ESCALAS - Quem veio primeiro: O homem ou o trabalho?





Coincidentemente, assisti “Amor sem escalas”, pela primeira vez, em um hotel na serra gaúcha, durante uma viagem de trabalho que me consumiria quatro dias e três noites longe de casa. Nada comparado ao ritmo alucinante em que o personagem principal, Ryan Binghan (interpretado por George Clooney) vive com suas idas e vindas pelo mundo. Mas a minha mala com três mudas de roupa espalhadas pelo quarto criaram uma atmosfera sinérgica com o filme, e a catarse foi inevitável. Se pensarmos que o trabalho, hoje, ocupa um papel central e determinante na vida das pessoas, as histórias do filme nos dão excelentes oportunidades de analisar e contextualizar alguns conceitos que a Psicologia, à luz da perspectiva institucional/organizacional, nos oferece.

Trabalho
Ryan exerce uma função extremamente delicada na empresa onde trabalha: demite pessoas. Trabalha com metas, prazos, índices, parece muitas vezes frio e distante diante de algumas situações que levariam qualquer pessoa às lágrimas. Mas em muitas profissões passa-se por isso, não? Um médico, um agente funerário, um psicólogo, muitas vezes lidam com situações delicadas com uma distância necessária para ao acompanhamento do caso. Ryan, além disso, gosta do que faz, se sente satisfeito com isso, desenvolveu habilidades que o tornaram um dos melhores de sua área. Ryan é um funcionário dedicado, ambicioso e que se realiza através de sua profissão. Ryan criou raízes com a função que desempenha, ele é a sua profissão. Não tem casa, vive em aeroportos, hotéis, ministra palestras sobre como viajar com uma mala apenas.  Esse envolvimento que criou com a seu emprego, que lhe é tão caro, que lhe é tão especial, esse laço que ele sabe ser tão importante, esse pilar que direciona a vida de cada ser humano é justamente o objeto destruído em suas visitas. Porque Ryan reúne-se com as pessoas justamente para dizer-lhes que tudo acabou. E neste momento podemos dizer que estamos pisando em um terreno fértil para a investigação dos processos psicológicos inferidos nas relações de trabalho: a subjetivação.

Relação Homem-Instituição
Porque o subjetivo? Porque o que cria este laço entre o trabalhador e sua empresa vai muito além de um salário ou de uma ocupação. Óbvio que os fatores práticos estão envolvidos: um trabalhador é o que ganha, é o que fala, é o que veste, é o lugar onde trabalha, é o que a empresa é. Mas todos os desejos que surgem a partir da relação do trabalhador moldam e transformam essa pessoa a partir dessa relação homem-instituição. Neste momento podemos ver como o homem faz a instituição e, no revés desse movimento, como a instituição faz o homem. E talvez, neste momento, possamos também entender como essa díade constrói também a sociedade em que vivemos, pois todas as configurações sociais são moldadas, através dos tempos, pelo homem e suas instituições.

Filiação
Existe um momento no processo de demissão muito duro para a maioria dos personagens que são visitados por Ryan: o momento em que a pessoa entende que não fará mais parte daquele grupo, daquela empresa, daquela instituição. Esse sofrimento é agravado pelo grau de filiação que cada um desenvolveu durante os anos de trabalho na empresa. Esse laço, de pertencimento, de fidelidade, de dependência até, é o que faz com que as empresas também obtenham sucesso na administração de seu pessoal e de suas atividades. Porém, ao mesmo tempo que um grau intenso de filiação gera frutos bons para a empresa, no momento de um desligamento gerará um grande sofrimento àquele que perde seu lugar na organização.

Competência
O papel de Ryan é usar suas habilidades para garantir que este processo de desligamento gere menos sofrimento às pessoas demitidas e diminuir os custos que a empresa têm advindos deste processo. Podemos dizer que o conceito de competência está intimamente ligado à capacidade de aproveitamento nas situações de trabalho. Ou seja, cada situação trás ao momento uma determinada necessidade, e o sujeito competente é aquele que tem as habilidades e conhecimentos necessários para lidar com cada uma destas situações. Podemos afirmar que, a partir do momento em que Ryan demonstra obter sucesso na difícil empreitada de lidar com a frustração e a decepção do outro, lidar com os imprevistos do momento do desligamento (pois nunca pode saber como a pessoa irá reagir), é persuasivo e atinge geralmente suas metas (a concretização dos acordos propostos) e ainda cria uma atmosfera de esperança e renovação para algumas pessoas, temos um exemplo claro do desenvolvimento de competências para uma determinada função. Mas são competências para este cargo, nesta empresa, sob a perspectiva do filme. Por isso o conceito de competência é tão abrangente no cenário atual: cada perfil será elaborado de acordo com as necessidades de cada cargo, o que nos leva a um cenário que cada vez mais fomenta a liberdade para a criação e o espaço para o desenvolvimento pessoal de cada trabalhador de acordo com suas atividades e de acordo com suas competências.

A renovação
Durante a história, o personagem passa por situações que o obrigam a buscar uma certa renovação, reinventando alguns cenários, revendo alguns conceitos, reavaliando sua condição na empresa e suas atividades. A partir da reinvenção da relação que têm com o trabalho, acaba por transformar também sua vida, e neste ponto voltamos ao contexto homem-instituição. O trabalho faz o homem, o homem faz o trabalho. A história de uma vida talvez possa ser também a história de toda a humanidade.