
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Psicopatologia

segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Dentro do abismo, dentro...

"Quem olha para fora, sonha e quem olha para dentro, acorda." (Jung)
É um processo doloroso, lento, como um parto que durasse anos. Talvez desde o nascimento, dedo a dedo de dilatação, até tomarmos coragem e começar a abrir os olhos. Depois de abertos, ainda cegos, somente vultos, é quase um penar, tropeços, quedas, a perda do equilíbrio.
Nítida a imagem, buscamos no mundo as respostas. Não vemos que lá fora só há perguntas, o compêndio de nossa própria existência está guardado lá dentro, bem no fundo do baú. Encontrar a chave não é fácil, mas tomar coragem para usá-la é terrificante, capaz de conduzir-nos à inércia total, de nos petrificar, como o olhar da Medusa.
Há quem diga que não tem medo desse acordar. Acho meio impossível não temer esses abismos. Sabe lá o que vamos encontrar em cada esquina do nosso inconsciente... Entre o médico e o monstro, qual dos dois te assusta mais? Hein, girl?
O pior é o pavor de virar pedra...
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
O QUE É A LOUCURA?
ALIENAÇÃO: Do latim alienatione 1 Ação ou efeito de alienar; alheação. 2 Cessação de bens. 3 Desarranjo das faculdades mentais. 4 Arrebatamento, enlevo, transporte. 5 Indiferentismo moral, político, social ou mesmo apenas intelectual. Alienação mental: loucura. (Dicionário Mochaellis, 2009)
Historicamente, no que se refere à loucura, o que mais chama a atenção é a transformação que a definição do conceito de “Alienação Mental” sofre durante o passar dos séculos. Mas, como sabemos, esse tipo de acontecimento é um fenômeno comum à todas as ciências, e a área da saúde mental não está imune à uma constante atualização de seus termos , conceitos e definições. Porém, quando lidamos com as ciências da saúde estamos lidando, no mais das vezes, com seres humanos, e todas essas mudanças acabam implicando em sérias conseqüências para nossa estruturação Social, moral e emocional. O homem é nosso mais delicado objeto de estudo, pois todo pesquisador acaba por usar sempre a si mesmo como objeto, passível de incorporar-se aos resultados de qualquer resultado de pesquisa.
Quando li pela primeira vez “O alienista”, cerca de 10 anos atrás, escapou-me o quanto as investigações acerca da loucura trouxeram conseqüências para todas as comunidades. Conseqüências capazes de atravessar séculos, a ponto de uma pessoa, na atualidade, sentir e perceber seus efeitos. É como se ouvíssemos, ainda hoje, nos próprios corredores da universidade, um eco distante, mas constante, profanando nossa posição tranqüila e acomodada diante dos desafios da Psicologia.
Em “A Grande Internação”, capítulo 2 do livro “A História da Loucura”, Foucault reproduz com competência e fidelidade a evolução do tratamento deferido aos doentes mentais e excluídos da sociedade européia. É importante ressaltar que o texto elucida que a evolução dos tratamentos acompanha a evolução epistemológica da loucura, muitas vezes alterando e revolucionando o paradigma cientifico da época, bem como seus desdobramentos sociais, morais, políticos e até mesmo econômicos nas civilizações alcançadas e organizadas por esses paradigmas. Sem descartar que, muitas vezes, tais transformações históricas poderiam ser consideradas como um retrocesso. Por exemplo, quando falamos das nuances de crueldade que envolvem o início do processo de isolamento e internação dos “pobres” europeus. Se no classicismo os loucos eram tratados com hospitalidade pela população, pois que “Deus os retirou a sanidade para que não cometessem pecado”, com a Reforma Luterana o doente mental começa a se transformar em problema social, junto com a grande quantidade de mendigos que habitavam os grandes centros da época. Se antes mereciam os louros da caridade cristã, a partir dessa época passam ser considerados responsabilidade de um estado laico, que na época, infelizmente, ainda não tinha uma visão humanista acerca de seus problemas com a população incapaz. Com o processo de isolamento, surgem grandes centros de internação, com graves problemas de abuso e sem qualquer enfoque na cura ou no tratamento adequado desses doente.
Voltando à grande questão inicial, sobre o que determina ou não o diagnóstico de uma alienação mental, chegamos na discussão central do livro “O Alienista”, no qual Machado de Assis conduz o leitos a reflexão sobre o tema, aproximando-nos a narrativa, ambientando a história em uma cidadezinha brasileira. As críticas do livro, é claro, vão muito além disso, mas o que mais chama a atenção é como o escritor, com habilidade sem precedentes, consegue demonstrar o quanto as questões sociais, e falo agora especificamente das questões de comportamento, puderam durante muito tempo também influenciar não só o diagnóstico, mas também suas terríveis conseqüências entre as populações: tratamentos abusivos, castrações de direitos, isolamento, são apenas algumas das retaliações da época. E especificamente na narrativa, o ponto culminante, a meu ver, é quando nosso Ilustríssimo Dr Simão Bacamarte passa a entender que todos aqueles que apresentam um comportamento diferente de um referencial, neste caso a maioria dos viventes, pode ser considerado insano. E pior ainda, quando mais da metade da população da cidade está sob custódia do hospício, óbvio que ele entende que o referencial passa a ser o oposto que imaginava que fosse, libertando assim todos os que até então estavam presos e encarcerando o restante da população. Não estamos longe de ver esse mesmo tipo de acontecimento no nosso dia-a-dia. Não falo de internações, por não ter ainda embasamento para tal afirmação. Mas não podemos negar que atualmente, qualquer um que apresente um comportamento “diferente” da maioria está à mercê da exclusão. Principalmente em uma sociedade que preza e valoriza cada vez mais moldes e fórmulas prontas, não incentiva o pensamento crítico, não valoriza a racionalização das construções sociais, e mais ainda em uma ciência que busca em vários momentos a normatização dos comportamentos, caso da psicologia apresentada em algumas linhas teóricas.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
EIS O HOMEM
CRIANÇA
“Só é feliz a pessoa que se orgulha enternecidamente de sua infância.”
CIGARRO
“Quem não fuma aproveita a vida. Quem fuma aproveita-se da vida.”
MÃE
“Não há homem que sem pelo menos uma mulher. Eu sobrevivo tonto sem a grande mulher da minha origem.”
BIPOLARIDADE
“Confesso uma intimidade: sou bipolar. E acrescento: desconfiem de todos os unipolares. Eles são pessoas de uma ideia só, de um emprego só, de um sentimento só, de uma mulher só, de um emprego só, de uma fonte de renda só e de uma solidão de dar dó.”
TECNOLOGIA
“Eu não temo ser chamado de retrógrado, é isso mesmo o que sou, pois a humanidade está e estará caminhando para um lado, e eu vou exatamente para o outro: eu vou me dirigir para a meta cafona da poesia e da sensibilidade, ao encontro das pesssoas e da natureza, fugindo das máquinas.”
MORTE
“Quando eu morrer, quero à beira da sepultura todos os meus amigos e alguns dos meus inimigos arrependidos. Depois dos risos e lágrimas, voltem para casa e nunca mais se esqueçam de mim.”
Trechos de "Eis o Homem", Paulo Sant'anna
segunda-feira, 21 de junho de 2010
EXPOSIÇÃO VIDAS DO FORA: EU SOU VOCÊ
HOSPITAL PSIQUIÁTRICO SÃO PEDRO
DE 21 DE JUNHO À 21 DE AGOSTO DE 2010
www.eusouvoce.com.br

atrás da porta
mundos à parte
em partes
que não conectam mais
a realidade
mas que em cores
explodem
atrás da porta
vidas
que se guardam
em algum lugar
que não sabemos
atrás da porta
vidas vividas
em dores
que não vemos
que não queremos
que não viveremos
mas que ainda assim
são vidas
atrás da porta
(Leandro Selister)
terça-feira, 18 de maio de 2010
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Como todo ensaio, é uma obra aberta. Talvez porque seja impossível para um escritor desenvolver um Tratado. A literatura se parece muito com a psicologia: sua base é a subjetividade.
Saramago é um gênio, e o ser humano um tema sem limites para digressões, sem regras, cheio de surpresas e encantos. O ser humano, ser que supera em si toda e qualquer espectativa ou perpectiva.
Nesta delicada e arrebatadora obra, o autor nos faz refletir sobre o quão frágeis e instáveis são os pilares sobre os quais edificamos nossa sociedade, o quão tênue é a linha que delimita nossa estabilidade emocional, em verdade: qual estabilidade? Diante do caos, o quanto do nosso ser animal temos que trazer a tona em nome da sobrevivência. E vestidos com a bandeira da luta pela sobrevivência, o quanto de maldade somos capazes de realizar. E essa maldade é animal? Mas diante da tragédia consola-nos pensar em o quanto nossa alma ainda pode lembrar das outras almas, do outro ser.
Na obra de Saramago, a humanização chega com o respeito e o cuidado pelo outro. Redescobre-se o sentido e a necessidade existirmos com o outro, para o outro, pelo outro e por nós mesmo: liberdade é co-existirmos.
E nos sentimos um pouco aliviados com nossa cegueira branca, pois é sempre doloroso encarar com esse lado negro que existe ainda em todos nós.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
(Mário Quintana)

Acredito no poder terapêutico da literatura. Toda e qualquer forma, desde Tolstói, passando por Veríssimos, chegando até a Fernandinha Young. Poesia então, nem se fala. A literatura fornece a nós importantes ferramentas para uma “análise”, em um sentido bem global mesmo. Através do contato com o mundo dos livros, que é uma espécie de verdadeiro retrato do mundo real, chegamos fundo na alma de todos. Estão todos lá: os amigos, o bandido da TV, o cara do armazém, o cobrador de ônibus, o advogado, a donzela, o feio, a menina que vende flores, os amores... Estamos todos lá, tudo de nós. Nossos medos, anseios, egoísmos, desejos, vontades, maldades, verdades, mentiras, amores... Somos capazes de reconhecer em cada personagem um eu diferente, porque cada um deles carrega a essência do ser humano, que está lé, descrita com uma nudez dilacerante pelas mãos do escritor. É por isso que é terapêutico, porque através da leitura travamos um profundo diálogo com o nosso eu, nos questionamos através das atitudes destas pessoas ficcionais e avaliamos, a cada passo dos personagens, nossa própria postura diante das coisas do mundo.
Adoraria sair do consultório com uma receita de livros...
